O GATO QUE JÁ ESTAVA UM HOMEM (Santos Fernando)
Era uma vez um moleiro, que disse para o gato preto:
- "Agora que estás um homem é altura de partires em busca da felicidade".
O âmbito de um gato de província é muito limitado e os seus meios de ação bastante restritos.
Habituado a uma freguesia de poucas almas, algumas das quais danadas, cresceu sem grandes vôos.
Agora que estava um homem, refletia: "Lá porque se atinge a maioridade, pregam-nos um pontapé no rabo e mandam-nos à vida?! Mas que vida? Que faz um gato na cidade? Os cães, pelo que oiço, sempre alçam a perna nas caixas aos gelados, nos cestos de frutas, nos pneus dos Rolls Royce. Que número de colos de velha há hoje na cidade, se esta tenta tudo para eliminar velhos e colos? Que poderia lucrar eu entre os gatos autóctones, com casa e rua próprias? Vai assim um gato da província para a cidade, chega lá, aqui estou eu em regime comunitário, eu dou as minhas sentenças, tu dás as tuas espinhas, tu mias e eu bufo, cavem vocês, agora vou eu repimpar-me? Trabalha, malandro! Mas trabalhar em quê? Quem dá emprego a um gato? Burros há muitos bem instalados. Nos anúncios, quem vai pedir um gato? O que não falta é gente que arranhe em tudo. Os cavalheiros só criam regalias para cavalheiros Haverá seguro, haverá previdência para um pobre gato?"
- E como busco eu a felicidade? - perguntou, então, o gato que já estava um homem.
- Correndo o mundo, respondeu o moleiro, que, até aí, só vira girar o seu moinho.
O gato preto partiu, tristemente, para reconhecer que todo o mundo corria com ele. Já estava um homem, não acreditava em milagres nem em fábulas nem em santos à boca do tonel. E um dia viu-se na contingência de regressar à província, faminto e miserável como nunca, as barbas descaídas, o pelo encrespado, os olhos lacrimosos.
Ora, o moleiro tinha arranjado outro gato, que, ao dar pela chegada do seu irmão de raça, quase nas lonas, inquiriu:
- Tu é que és o gato que já estava um homem e partiu em busca da felicidade?
- Sou, anuiu este, fungando de exaustão e de fome.
- E a felicidade, encontraste-a?
O gato preto que já estava um homem fez uma careta.
- Olha para mim - e apontou a pele seca da barriga, onde não cabia um rei, quanto mais um carapau.
- Por quê não partes outra vez? - sugeriu o jovem felino - às vezes, a felicidade não se encontra à primeira...
Sem mesmo esperar que o moleiro aparecesse, o infeliz comeu uma buchita e tornou a meter-se à estrada, cabisbaixo e vencido.
- Estúpido, dizia por trás dos vidros o gato acomodado. Não sabe que a felicidade é uma coisa local.
Enroscou-se a um canto e adormeceu sem pressa.
Não foi longe o gato que já estava um homem. Estourou a meio caminho da vida e da felicidade. A cair aos bocados. Como a moral desta história.
[Texto publicado no antigo O PASQUIM]
- "Agora que estás um homem é altura de partires em busca da felicidade".
O âmbito de um gato de província é muito limitado e os seus meios de ação bastante restritos.
Habituado a uma freguesia de poucas almas, algumas das quais danadas, cresceu sem grandes vôos.
Agora que estava um homem, refletia: "Lá porque se atinge a maioridade, pregam-nos um pontapé no rabo e mandam-nos à vida?! Mas que vida? Que faz um gato na cidade? Os cães, pelo que oiço, sempre alçam a perna nas caixas aos gelados, nos cestos de frutas, nos pneus dos Rolls Royce. Que número de colos de velha há hoje na cidade, se esta tenta tudo para eliminar velhos e colos? Que poderia lucrar eu entre os gatos autóctones, com casa e rua próprias? Vai assim um gato da província para a cidade, chega lá, aqui estou eu em regime comunitário, eu dou as minhas sentenças, tu dás as tuas espinhas, tu mias e eu bufo, cavem vocês, agora vou eu repimpar-me? Trabalha, malandro! Mas trabalhar em quê? Quem dá emprego a um gato? Burros há muitos bem instalados. Nos anúncios, quem vai pedir um gato? O que não falta é gente que arranhe em tudo. Os cavalheiros só criam regalias para cavalheiros Haverá seguro, haverá previdência para um pobre gato?"
- E como busco eu a felicidade? - perguntou, então, o gato que já estava um homem.
- Correndo o mundo, respondeu o moleiro, que, até aí, só vira girar o seu moinho.
O gato preto partiu, tristemente, para reconhecer que todo o mundo corria com ele. Já estava um homem, não acreditava em milagres nem em fábulas nem em santos à boca do tonel. E um dia viu-se na contingência de regressar à província, faminto e miserável como nunca, as barbas descaídas, o pelo encrespado, os olhos lacrimosos.
Ora, o moleiro tinha arranjado outro gato, que, ao dar pela chegada do seu irmão de raça, quase nas lonas, inquiriu:
- Tu é que és o gato que já estava um homem e partiu em busca da felicidade?
- Sou, anuiu este, fungando de exaustão e de fome.
- E a felicidade, encontraste-a?
O gato preto que já estava um homem fez uma careta.
- Olha para mim - e apontou a pele seca da barriga, onde não cabia um rei, quanto mais um carapau.
- Por quê não partes outra vez? - sugeriu o jovem felino - às vezes, a felicidade não se encontra à primeira...
Sem mesmo esperar que o moleiro aparecesse, o infeliz comeu uma buchita e tornou a meter-se à estrada, cabisbaixo e vencido.
- Estúpido, dizia por trás dos vidros o gato acomodado. Não sabe que a felicidade é uma coisa local.
Enroscou-se a um canto e adormeceu sem pressa.
Não foi longe o gato que já estava um homem. Estourou a meio caminho da vida e da felicidade. A cair aos bocados. Como a moral desta história.
[Texto publicado no antigo O PASQUIM]